4 de fevereiro de 2011

Sobre a primavera

Sobre a primavera

De tempos em tempos lançarei garrafas ao mar. Marcarei com breves textos – as nuanças da vida.
Em que idioma cai a chuva sobre cidades dolorosas? Pablo Neruda – este foi meu mote.
Encontrar a palavra certa nunca é confortável, é sempre um ato solitário, vagaroso, porém, insubstituível, sobretudo, aos que buscam o inexpressável e tentam fixar vertigens.
Creio que a primavera atiça nossa curiosidade, nossa sensibilidade, nossas fantasias e nos torna mais porosos à amizade e ao diálogo, porque contemplamos mais. Tento com palavras alcançar com as mãos o seu perfume.
Suave, de novo ela nos invade, serenamente, transborda com vida em abundância. Durante a primavera lancemos sobre a Terra sementes de sensatez e esperança com fé que elas germinarão. Sabemos que, para as mulheres, nas quais a vida se instala e habita de modo mais imediato, frutífero e cheio de confiança; esta estação é a promessa de vida.
O tempo, esse cuidadoso alfaiate, nos permita, singularmente, alargar as medidas do impossível. Como registrou Ana Maria Feitosa “pensando como quem dorme – falando como quem sonha – amando como quem pode”.
Sobre estes dizeres a respeito da primavera lembrem-se do espanhol Ortega y Gasset “Todo dizer é deficiente – diz menos do que quer; todo dizer é exuberante – dá a entender mais do que se propõe”.
Bons ventos aos homens, belas flores às mulheres e vice-versa.
Paz para todos. Continuemos apaixonados pela vida e fazendo, a cada primavera, maior e mais forte investida.
Muito obrigado, pois, como você abriu a garrafa é sinal de que dentro de você há esperança, portanto, estamos juntos. Abraço fraterno.
Prof. e Cap. Ronilson

Tema para debate

Tema para debate: Mestres e doutores na polícia

O texto abaixo foi retirado da edição on-line de março da revista Caros Amigos. Será que doutores e mestres são a solução para melhorar a polícia?! A exigência de doutorado não melhorou a Universidade, por exemplo. Hmmm...sei não.  

por Ronilson de Souza Luiz 

Conforme definiu o antropólogo e ex-secretário nacional de segurança pública, Prof. Dr. Luiz Eduardo Soares :
“Nossas polícias são máquinas pesadas e lentas, nada inteligentes e criativas, que não valorizam seus policiais nem os preparam adequadamente; não planejam nem avaliam o que fazem; não aprendem com os erros porque não os identificam; não conhecem os problemas sobre os quais atuam (os policiais, individualmente, sabem muito; a polícia, como Instituição, nada sabe); não cultivam o respeito e a confiança da população; cada vez mais só prendem em flagrante, porque pouco investigam; limitam-se a reagir depois que os crimes já ocorreram; cometem um número imenso de crimes, quando sua tarefa é evitá-los ou conduzir à Justiça os perpetradores.”
É a partir desta constatação que defendi a tese de que se não investirmos, também, no processo externo para melhor qualificação dos policiais, pouco avançaremos.
Não por acaso, o que mais me perguntam desde quando ingressei no mestrado é “quando você vai sair da polícia?”. Nossas polícias são, em última análise, concomitantemente, uma função social, uma organização jurídica e um sistema de ação cujo recurso essencial é a força.
Prever, projetar e prevenir são os verbos que se apossam de nossas vidas individualizadas como resultado dos cenários presentes, especialmente nas áreas da saúde, educação e segurança pública; por atuar nesta última há poucos 17 anos, é a respeito dela que escrevo.
Neste exato momento em que o país comemora 10 mil doutores/ano, minha pergunta é: quantos pertencem aos quadros da segurança pública em seu ponto mais expressivo, ou seja, o policial militar fardado, a “ponta da linha”?
As demandas da atividade policial, hoje, exigem que o policial tenha discernimento nas mais variadas e complexas situações, em razão de as novas tecnologias e a dinâmica da velocidade dos grandes centros urbanos exigirem desenvoltura e outras competências para a tomada de decisões.
Longe de acreditar que seja condição sine qua non ser Doutor para atuar no policiamento de grandes metrópoles. Contudo, prezado leitor, nenhum de nós imagina cidades como Paris, Nova Iorque, Madri, Tóquio sem um único Doutor, em qualquer área do conhecimento, que faça também parte de seus quadros, mas, pasmem, por aqui isso acontece e não só em São Paulo, mas também nas demais unidades da federação.
A constante insuficiência de recursos, combinada com a imprevisibilidade e complexidade dos problemas contemporâneos, exige inovações na busca de métodos alternativos de intervenção, fatores que cobram um outro modelo de formação e gerenciamento do aparelho policial.
Para promovermos ações coletivas, a fim de que se vislumbrem horizontes melhores, os governantes e dirigentes da pasta devem investir na pós-graduação (mestrado e doutorado), pois, com as ferramentas de que estes cursos dispõem, nossos gestores de segurança pública poderão antever melhor e com maior profundidade os dinâmicos processos que interagem com a segurança pública.
Trabalho, pesquiso e estudo objetivando participar de uma instituição livre de vícios, valorizada socialmente e detentora de credibilidade. Sobre o futuro da Polícia Militar, penso que está chegando a hora de tomarmos o remédio amargo. Um conjunto crescente de profissionais percebe que nosso modelo urge ser reformulado, todo o sistema passa por significativas mudanças, e não cônscios desta realidade daremos maior vigor ao descrito no início destes escritos.
Reafirmo, como educador policial-militar, que não obstante os diagnósticos sombrios a respeito da profissão policial, busco e acredito, com entusiasmo, que há caminhos seguros a serem trilhados, para nos afastarmos da barbárie reinante, e estou convencido de que ele passa pelo investimento, com apoio das Universidades, na pós-graduação dos policiais. Temos também que revitalizar as instituições internas de ensino, com revisões dos currículos e metodologias mais significativas, aproveitanto o restrito número de titulados (mestres) que, infelizmente, ainda não atuam na área de formação.
Agora, na fase final do doutoramento, a pergunta que ouço é: por que você ainda não saiu da polícia? Desejo ter exposto aqui parte da resposta, que não é apenas minha, mas também de outros poucos que seguem esta trilha.  Enfim, a caminhada é longa, irregular, espinhosa e imprevisível — igual a tudo na vida.

Ronilson de Souza Luiz é oficial da Polícia Militar, doutor em Educação pela Puc/SP, professor universitário e colaborador na Universidade da Cidadania Zumbi dos Palmares.

28 de janeiro de 2011

POLÍCIAS - TERMÔMETRO DA DEMOCRACIA

 Ronilson de Souza Luiz

   "Do rio que tudo arrasta se diz violento, mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem.” (Bertold Brechet)

   Visível e, no entanto, desconhecida, familiar e, todavia, estranha, protetora e, apesar de tudo, inquietante: a polícia inspira nos cidadãos das democracias modernas sentimentos ambíguos, resumidos nessas três oposições. Mas, antes de mais nada, o que é polícia? É assustador o elevado número de pessoas que desconhecem, por completo, minimamente como funciona o aparelho policial, quanto aos modos de organização e o controle externo a que está submetido. Trata-se de uma constatação reveladora, porque se os pesquisadores e críticos de plantão não estão familiarizados com as rotinas mínimas de um posto policial, de uma companhia operacional de policiamento e de uma delegacia de polícia ou não têm paciência e tempo para estudá-los -como podem comentá-los? Já é tempo de nossos sociólogos, cientistas políticos, antropólogos, enfim os pesquisadores das ciências humanas, se darem conta de que não tiveram a coragem necessária de mergulharem no emaranhado, à Michel Foucalt, que envolvem os aparelhos dos funcionários responsáveis por fazerem cumprir a lei.
   Há certamente uma relação direta entre a crítica ferrenha e as trevas do desconhecimento no que se refere às questões mínimas de polícia. Cabem a esses críticos a opção de que a esperança do mundo pode estar na revolta, que, etimologicamente, significa "dar meia volta", passando a dar às polícias o devido valor e relevância. Por isso, é importante que sejam divulgados os excelentes trabalhos realizados nas Unidades Escolas da Polícia Militar, a saber: Centro de Formação de Soldados, Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças, Escola de Educação Física, Academia de Polícia Militar do Barro Branco e Centro de Aperfeiçoamento e Estudos Superiores, espaços de treinamento e formação, o que implica em gestão democrática e práticas curriculares participativas, propiciando a constituição de redes de formação contínua, cujo primeiro e mais importante enfoque é a formação dos soldados.
   Quando os debatedores falam em violência, devemos ter em conta, que implica intencionalidade, o que exige inteligência: razão pela qual os irracionais não são violentos, mas ferozes. Ninguém se iluda, todavia. Temos ante nós tarefa muito e muito difícil. Até porque, em sua célebre obra O mal-estar na civilização, como em outras, Freud procura demonstrar-nos que o processo civilizatório é intrinsecamente repressivo, o que põe a violência como constitutiva das civilizações.
   É papel fundamental do pesquisador abordar questões preementes ao funcionamento mínimo da vida, porém, o que notamos são teses e dissertações a cerca dos mais variados temas exceto sobre as polícias. Espero que o brilhante material disponibilizado pelo NEV- Núcleo de Estudos da Violência- USP, via Edusp, com patrocínio da Ford Fundation, possa despertar a importância que tem as polícias, hoje, no cenário mundial.
   Ao educador policial-militar e aos professores da Polícia Civil e Científica cumprirá como foi ensinado por Buber, propagar que o encontro humano coroa um momento de graça no qual havia alguém batendo pelo lado de fora, bem como havia alguém querendo abrir, pelo lado de dentro da porta.
   Como não existe ser humano apolítico, pois que nem os omissos logram sê-lo (omitir-se é também tomar posição política), principalmente o policial-educador deve ser alguém politizado; isto não significa que, como formador de opinião, ele esteja nomeado doutrinador das massas,  porém é fundamental que tenha consciência de que a atuação da polícia é de fato o termômetro do grau da democracia de um povo. Portanto, salvando-nos do naufrágio individualista, será necessário que voltemos a  conceber a vida como um complexo de interdependências, como a grande arena das fragilidades humanas necessitadas da solidariedade mútua. E lembremos, relendo a epígrafe, que nenhum tempo é tempo de desistir.
Inteligência Policial

Ronilson de Souza Luiz
Há uma charge provocativa aos policiais que diz: “inteligência policial – duas palavras
contraditórias”.
Com certeza, o policial exerce poder, mas com a mesma certeza se constata que, em torno e
sobre ele, outros poderes se exercem, em um incrível jogo de estratégias. Eis a primeira vista um
paradoxo, mas que de fato é parte de um mesmo sutil mecanismo: o policial é poderoso e, ao
mesmo tempo, e na mesma intensidade, “não possui poder algum”; ele serve de instrumento para
que outros poderes sejam exercidos e, é nesse jogo, justamente, que a inteligência policial se
mostra vigorosa.
É certo, pois, que se trata de um ofício; ser, hoje, policial em qualquer local, mas não de um ofício
qualquer. É um ofício que dói, e no qual muito se arrisca.
A pergunta então é:____ o que é inteligência policial?
É investir na formação contínua do policial, do Soldado ao Coronel, valendo para a Polícia Civil e a
Científica.
A inteligência policial exige que o patrulheiro observe a regra, e que identifique-se com ela, e que
esteja sistematicamente atento à irregularidade – quando os outros, ao contrário, baseiam-se nas
regularidades.
Tenho dito que quanto mais qualificado for o corpo docente das instituições policiais melhores
serão os futuros policiais, consequentemente, teremos melhor prestação de serviço.
Certamente, seguindo exemplos possíveis de serem aplicados em nossa realidade, com
integração e parceria junto as Universidades que contam com institutos de pesquisa que abordem
questões ligadas a atividade policial.
Fica aqui a grande dica ao presidente que venceu e aos governadores eleitos e reeleitos, ou seja,
a atividade policial-militar que é essencialmente preventiva; repressiva apenas no limite, exige
treinamento e formação permanente.
Lembrando que a cultura ainda não conhece melhor prevenção do que o esclarecimento e o
diálogo, frutos de uma boa educação.
A atividade policial por ser essencial, emergencial e diuturna necessita sobremaneira formular
hipóteses, construir caminhos, tomar decisões, em bom tempo a sociedade percebeu que urge
investir nas polícias, e o ditado por ser rancoroso, provará ser inverídico.
Minha contribuição: a propagada inteligência policial é afirmar que ela será alcançada por meio do
investimento no objeto descrito abaixo, adaptado da obra
Ofício de escrever.
“É uma máquina bem inventada: tem pouco peso, cabe no bolso, não consome energia ( não
necessita pilhas, nem tomadas, nada ), é descartável ou guardável, conforme a conveniência, usa
se em qualquer lugar (uma praia , um trem, o metro, a sala de espera do dentista).
Ele pára quando queremos, podemos voltar para trás, repetir, pular vários capítulos, conhecer o fim
desde o início, tomar notas, folhá-lo, deixá-lo na mesa da cabeceira por meses a fio, retomá-lo de
repente como se nunca tivéssemos tido em mãos algo tão prazeroso, mantê-lo aberto sobre os
joelhos, dormir com ele no colo, oferecê-lo a quem não dispõe de instrumento eletrônico algum,
com a segurança de que será plenamente desfrutado, ele pode abarcar todo o universo do
conhecimento e da sensibilidade humana”.
Todo mundo escreve para que a sociedade mude e é o modo como interrogamos o mundo que se
renova sempre.
Não caminhando por esta trilha tornaremos o ditado que abre o texto verídico.
Por tudo isso não posso deixar de cumprir também este dever pedagógico, como educador policial
militar, de esclarecer as idéias e colocar ordem no pensamento, acreditando que tudo que
escrevemos com facilidade é normalmente difícil de se ler.
Ronilson de Souza Luiz,40, Oficial da Polícia Militar do Estado de São Paulo, Professor
Universitário, Doutor e Mestre em Educação na PUC/SP, Bacharel e Licenciado em Letras
pela USP, Instrutor no Centro de Formação de Soldados. Email - profronilson@gmail.com